Saúde e Bem-Estar Brasil

Solidão agrava dor física e impacto é maior em fêmeas, indica estudo

Pesquisa com camundongos revela que isolamento social dificulta recuperação da dor, especialmente nas fêmeas

Solidão e dor crônica

A pesquisa evidencia que o isolamento social pode agravar a dor física, especialmente em mulheres, o que tem implicações importantes para tratamentos médicos. Reconhecer o papel do suporte social e das diferenças biológicas pode aprimorar estratégias terapêuticas personalizadas, melhorando a recuperação e o bem-estar dos pacientes. Isso reforça a necessidade de integrar aspectos sociais e de gênero na gestão da dor crônica.



'Sobretudo no caso das camundongas fêmeas, os resultados são tão robustos que não devem ser ignorados para a saúde humana', afirma pesquisadora (imagem: Daniela Baptista de Souza/PIPGCF-UFSCar-Unesp)





Saúde


Solidão intensifica dor física e efeito é maior no sexo feminino







19 de março de 2026





Experimento realizado em camundongos indica que sexo biológico e suporte social influenciam na cronificação da condição; pesquisadores defendem que o isolamento passe a ser considerado um fator de risco em pós-operatórios e tratamentos



Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – A solidão pode prolongar a dor e dificultar a recuperação física, especialmente em indivíduos do sexo feminino. Foi o que mostrou um estudo realizado com camundongos em que pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) avaliaram como o isolamento social interfere na transição da dor aguda para a crônica. Com os resultados, publicados na revista Physiology Behavior, os autores defendem que a solidão passe a ser considerada um fator de risco em pós-operatórios e tratamentos para a dor.



O trabalho, apoiado pela FAPESP, analisou camundongos adultos machos e fêmeas isolados em gaiolas individuais ou mantidos em grupo com outros quatro animais do mesmo sexo. Para simular a transição da dor aguda para a crônica, todos os animais receberam um corte na pata traseira e, duas semanas depois, uma injeção de prostaglandina para reativar a hipersensibilidade.



Durante o experimento, os pesquisadores avaliaram a sensibilidade mecânica à dor, as expressões faciais de desconforto dos animais e comportamentos ligados à ansiedade e depressão, como a exploração de novos ambientes e o estado de apatia e anedonia (incapacidade de sentir prazer em atividades que antes eram prazerosas, como alimentação) pelo estado da pelagem. Também foram monitorados os níveis de hormônios relacionados ao vínculo social e à dor, como a ocitocina, vasopressina e corticosterona.



“Somente as fêmeas isoladas continuaram com dor intensa 14 dias após o corte. Foi o único grupo que não se recuperou. A dor foi persistente, tornando-se crônica, antes mesmo que realizássemos a intervenção adicional para cronificação”, afirma Daniela Baptista de Souza, professora do Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas, mantido pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Unesp, e uma das autoras do estudo.



“Com isso, conseguimos mostrar que o isolamento social atrasa a recuperação da dor. No caso, sobretudo, das camundongas, os resultados são tão robustos que não devem ser ignorados para a saúde humana”, diz.



Ser fêmea impactou mais que a solidão



Os machos isolados demonstraram maior resiliência física e não apresentaram prejuízo na recuperação, embora tenham apresentado uma exacerbação da ansiedade em comparação com os machos não isolados.



Outro aspecto importante é que, enquanto as fêmeas isoladas mantiveram níveis baixos de ocitocina durante todas as etapas do experimento, os machos isolados com dor crônica (após o uso de prostaglandina) recuperaram os níveis do hormônio, atingindo patamares similares aos animais que não sofreram estresse social.



De acordo com os pesquisadores, o grupo das camundongas não isoladas mostrou que o suporte social pode ser um fator de proteção, permitindo que elas recuperassem a sensibilidade física totalmente em duas semanas e o equilíbrio emocional após o estímulo doloroso.



“Não deixa de ser curioso que, mesmo quando a dor crônica foi induzida nas fêmeas que viviam em grupo, houve redução dos níveis de ocitocina. Isso sugere que, nelas, o sistema de dor afeta esse hormônio de maneira mais direta do que o ambiente social”, afirma Baptista.



Os camundongos machos agrupados foram os que apresentaram maior estabilidade e resiliência.



O trabalho é um dos primeiros a demonstrar o impacto da solidão na cronificação da dor levando em conta o sexo biológico dos animais. “Apesar de a dor crônica ser mais prevalente em mulheres, historicamente a inclusão de indivíduos do sexo feminino em ensaios clínicos e pré-clínicos é muito baixa. Isso traz uma série de implicações negativas no entendimento de diferentes aspectos da dor', ressalta Baptista.



Para a pesquisadora, os achados ajudam a explicar por que mulheres são mais propensas a apresentar dor crônica, ansiedade e depressão e reforçam a necessidade de considerar o sexo biológico e o suporte social como variáveis centrais em pesquisas e tratamentos personalizados para a dor.



“O estudo mostrou que o isolamento social prejudica a recuperação das fêmeas de forma mais intensa e duradoura do que nos machos, afetando aspectos físicos, emocionais e hormonais. Esse resultado abre espaço para novas pesquisas. Ainda não conhecemos bem os mecanismos que explicam essa diferença, mas já está claro que a interação social e o sexo biológico são fatores centrais na percepção da dor”, afirma a pesquisadora.



O artigo The interplay of social isolation, sex, and hyperalgesic priming on behavior and hormone levels in a mouse model pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0031938425003920.

Resumo da Notícia

Um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp e UFSCar demonstrou que a solidão pode intensificar e prolongar a dor física, com efeito mais pronunciado no sexo feminino. Utilizando camundongos, o experimento mostrou que fêmeas isoladas socialmente mantiveram níveis elevados de dor crônica após lesão, enquanto machos apresentaram maior resiliência. Além da dor persistente, as camundongas isoladas exibiram alterações emocionais e hormonais, como baixos níveis de ocitocina, evidenciando a influência do suporte social na recuperação. Os resultados sugerem que o isolamento deve ser considerado um fator de risco em tratamentos pós-operatórios, reforçando a importância de incluir o sexo biológico e o contexto social em abordagens terapêuticas personalizadas para a dor. A pesquisa contribui para entender por que mulheres são mais vulneráveis à dor crônica e destaca a necessidade de ampliar estudos com foco no impacto social e biológico no manejo da dor.

Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.