Novo biobanco brasileiro promete revolução na prevenção do câncer
Um novo projeto do Hospital de Amor, localizado em Barretos, São Paulo, está revolucionando a maneira como o Sistema Único de Saúde (SUS) poderá abordar a prevenção do câncer. A iniciativa envolve a criação de um banco de amostras biológicas que pretende identificar indivíduos com maior risco de desenvolver diferentes tipos de câncer, utilizando dados genéticos, epidemiológicos e informações sobre estilo de vida.
Com a participação de 4.062 pessoas e quase 40 mil amostras de sangue, o projeto visa alcançar um total de 8 mil participantes, dividindo equitativamente entre aqueles com e sem câncer nos próximos dois anos. Os primeiros tipos de câncer a serem estudados são os de mama, colorretal e do colo do útero, todos com métodos de prevenção reconhecidos.
O diretor científico do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital de Amor, Rui Manuel Reis, destaca a importância de criar um biorrepositório que leve em conta a diversidade genética da população brasileira. A maioria dos dados sobre predisposição genética ao câncer foi baseada em estudos realizados em populações de ancestralidade europeia, o que pode não refletir adequadamente a realidade de uma população tão miscigenada como a brasileira.
Um dos principais objetivos do projeto é desenvolver um escore poligênico de risco, que irá avaliar as pequenas variações genéticas que, somadas, podem indicar maior ou menor predisposição para o câncer. Este escore será uma ferramenta valiosa, pois permitirá identificar, por exemplo, quem deve iniciar rastreamentos mais precoces ou intensivos.
Além disso, o projeto não se limita a analisar questões genéticas. Os pesquisadores também aplicarão um questionário abrangente para coletar informações sobre o estilo de vida dos participantes, como hábitos alimentares, atividade física e exposição a fatores ambientais. Isso é crucial, pois a combinação entre predisposição genética e fatores externos é determinante na ocorrência do câncer.
A escolha dos tipos de câncer focados no estudo não foi aleatória. Estes cânceres são significativos no Brasil e possuem métodos de rastreamento que podem ser aprimorados com o uso de dados genéticos. O objetivo é que, ao identificar indivíduos com alto risco, o SUS possa implementar estratégias de prevenção mais eficazes e personalizadas, aumentando as chances de diagnóstico precoce e tratamento bem-sucedido.
Atualmente, os pesquisadores estão analisando milhões de variações genéticas para identificar quais são mais relevantes para a população brasileira. A expectativa é que, no futuro, um teste possa ser criado, utilizando apenas as variantes mais significativas. No entanto, a ferramenta ainda não está pronta para implementação no SUS. É necessário validar os escores em uma amostra maior antes de considerar sua utilização em larga escala.
O estudo representa um passo importante para garantir que a medicina de precisão no Brasil considere a realidade da população local. A criação deste biobanco não apenas abre portas para novas pesquisas, mas também assegura que o Brasil não fique à margem dos avanços na medicina personalizada. Com isso, o Hospital de Amor busca entender a relação entre genética e fatores ambientais, desenvolvendo métodos de prevenção que realmente atendam às necessidades da população brasileira.