Estudo revela que bivalves possuem capacidade surpreendente de percepção da luz
Um estudo recente revelou que moluscos bivalves, como ostras e mexilhões, têm uma habilidade surpreendente de perceber a luz ao seu redor, mesmo na ausência de olhos. Pesquisadores descobriram que esses animais utilizam uma variedade de proteínas conhecidas como opsinas, que em alguns casos superam em número as proteínas responsáveis pela visão humana.
Publicada na revista Proceedings of the Royal Society B, a pesquisa analisou 17 espécies de bivalves, incluindo aquelas coletadas em São Sebastião, no litoral paulista, e outras provenientes dos Estados Unidos. Os pesquisadores descobriram que, enquanto as retinas humanas utilizam apenas cinco tipos de opsinas, bivalves sem ocelos podem produzir até nove, enquanto espécies com ocelos apresentam entre cinco e doze tipos.
Jorge Audino, primeiro autor do estudo e pós-doutorando no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), destacou que a capacidade de perceber a luz é mais complexa do que se pensava. Embora se soubesse que bivalves sem ocelos já conseguem se proteger ao perceber sombreamento, a quantidade de opsinas identificada foi uma grata surpresa. Isso abre espaço para novas investigações sobre funções ainda não conhecidas desses receptores na pele dos moluscos.
As opsinas, presentes em diversas partes do corpo dos animais, são essenciais não apenas para a visão, mas também desempenham papéis em processos como cicatrização e regulação de ciclos biológicos. A pesquisa mostrou que, apesar de muitos bivalves não terem uma visão definida, eles utilizam um repertório amplo de opsinas para detectar mudanças na luz, o que pode ser crucial para sua sobrevivência.
Ao longo do estudo, os cientistas notaram que a diversidade de opsinas não está necessariamente ligada à mobilidade dos bivalves. Espécies fixas podem ter mais opsinas do que aquelas que se movem livremente, desafiando a expectativa de que uma maior mobilidade exigiria uma percepção mais desenvolvida do ambiente. Essa descoberta sugere que a evolução das opsinas nos bivalves é mais complexa do que se imaginava, possivelmente relacionada ao habitat e à intensidade de luz em que essas espécies vivem.
Os pesquisadores pretendem continuar a investigar as capacidades de percepção dos moluscos, incluindo suas respostas químicas e térmicas ao ambiente. Compreender esses mecanismos é fundamental para avaliar os impactos da poluição e desenvolver estratégias para a conservação de bivalves, que desempenham funções ecológicas e econômicas significativas.
O trabalho também levanta questões sobre como a evolução das opsinas pode ter influenciado a adaptação dos bivalves a diferentes ambientes, especialmente em relação a suas necessidades de sobrevivência e reprodução. Essa nova compreensão pode levar a esforços mais eficazes para proteger essas espécies em um mundo em constante mudança.