Estudo propõe nova abordagem para restauração florestal com IA
A restauração florestal em larga escala pode ganhar um novo rumo, conforme um estudo recente publicado na revista Trends in Ecology & Evolution. Os pesquisadores do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), apoiados pela FAPESP, propõem que, em vez de tentar 'reconstruir' ecossistemas como se fossem obras de engenharia, é essencial criar condições que permitam sua auto-organização.
Os autores Pedro Henrique Santin Brancalion e Marcelo P.L. Medeiros criticam a ideia comum de que é possível montar uma floresta da mesma forma que se constrói uma infraestrutura. Eles enfatizam que uma floresta vai muito além do simples plantio de árvores, possuindo uma biodiversidade e uma complexidade que resultam de interações entre diversos organismos, solo, clima e processos ecológicos ao longo do tempo.
“Restaurar florestas não é simplesmente plantar árvores, mas criar condições para que os ecossistemas recuperem sua complexidade”, afirma Brancalion. Nesse sentido, a inteligência artificial (IA) pode servir como uma ferramenta para ampliar a compreensão da complexidade ecológica, sem substituir os processos naturais.
Os pesquisadores destacam que a regeneração natural é um componente crítico na recuperação de ecossistemas. A sucessão ecológica, por exemplo, é um processo onde as comunidades se reorganizam e desenvolvem sua complexidade de forma gradual e autônoma, sem controle humano direto. Por isso, a proposta é mudar a perspectiva de restauração, permitindo que os processos ecológicos conduzam a recuperação.
Para isso, os autores defendem a integração de três formas de inteligência: a humana, que define os objetivos e mobiliza recursos; a natural, que refere-se à capacidade dos ecossistemas de se organizarem e se adaptarem; e a artificial, que pode auxiliar na precisão e adaptabilidade das intervenções. Com essa abordagem, a restauração florestal pode se tornar mais sensível às particularidades de cada paisagem e aos limites da ação humana.
Entretanto, os autores também alertam para os riscos associados ao uso da IA. Eles destacam que sistemas de inteligência artificial não são neutros e seus resultados dependem dos dados usados para treiná-los e dos algoritmos aplicados. Um uso inadequado da IA pode priorizar o plantio de árvores em detrimento da regeneração natural, favorecendo espécies com mais dados disponíveis e ignorando organismos menos estudados.
Além disso, a automação traz implicações sociais que não podem ser ignoradas. Embora possa aumentar a eficiência, a automação pode alterar oportunidades de trabalho e a geração de renda em comunidades locais. Por isso, os autores enfatizam a importância de considerar não apenas a eficiência, mas também o bem-estar humano e as prioridades sociais ao decidir sobre o uso da IA na restauração florestal.
O artigo, intitulado "Human, natural, and artificial intelligence in forest restoration", pode ser acessado na plataforma ScienceDirect.