A Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, está emitindo para a atmosfera mais dióxido de carbono (CO2) do que absorve, tornando-se uma fonte líquida do principal gás de efeito estufa. Entre 2010 e 2024, a floresta liberou em média 1,17 bilhão de toneladas de CO2 a mais do que capturou da atmosfera. As queimadas são a principal responsável por essas emissões, liberando cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO2 por ano, superando amplamente a capacidade de absorção da vegetação, que é de cerca de 300 milhões de toneladas anuais. Essa conclusão foi divulgada em um estudo publicado na revista Nature e liderado por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). [S1]
O trabalho, baseado em uma análise de 15 anos de medições atmosféricas, identificou a ação humana, especialmente queimadas e desmatamento, como o principal fator responsável pelo desequilíbrio no balanço de carbono da região. A degradação causada por essas práticas tem reduzido as chuvas anuais em 8%, e, durante a estação seca, a diminuição chega a 20%. Ao mesmo tempo, as temperaturas médias da Amazônia aumentaram 1,13 °C ao ano, com elevação de 1,81 °C na estação seca. Essas alterações prejudicam a manutenção da floresta úmida e criam um ciclo de retroalimentação que favorece ainda mais as queimadas, aumentando a degradação da vegetação remanescente. [S1]
A pesquisa agrupou os anos do período estudado em três cenários climáticos e com diferentes níveis de interferência humana: anos chuvosos com baixa atividade antrópica; anos com baixo estresse climático, mas com acentuado aumento do desmatamento e queimadas; e anos quentes e secos marcados por eventos climáticos como El Niño, acompanhado de intenso crescimento nas queimadas. Nos dois últimos cenários, a Amazônia passou a ser uma fonte líquida de CO2, com um balanço médio de emissão de cerca de 1,58 a 1,8 bilhão de toneladas por ano, muito acima da capacidade natural da floresta de absorver carbono. [S1]
Além das atividades humanas, o aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos extremos, como as secas e ondas de calor, tem agravado o estresse sobre a floresta amazônica. Um estudo recente revelou que o aumento da temperatura máxima durante a estação seca já ultrapassou 3 °C em áreas preservadas da região centro-norte da Amazônia, região importante para a conservação da biodiversidade e riqueza cultural. Esses extremos climáticos tendem a se intensificar e a se tornar mais frequentes nas próximas décadas, com projeções que indicam aumento expressivo das secas associadas ao aquecimento global e à crise climática. [S3]
Em particular, o último El Niño (2023-2024) destacou-se com seca e calor simultâneos em 75% das florestas tropicais globais, servindo como um indicativo do 'novo normal' climático que o bioma Amazônia pode enfrentar se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas. O estudo publicado na revista Earth's Future aponta que a probabilidade de secas severas semelhantes crescerá até nove vezes até o fim do século, impactando a funcionalidade das florestas e podendo fazer com que elas passem a emitir carbono ao invés de absorvê-lo. [S4]
As consequências desses processos incluem impactos profundos na biodiversidade, nos serviços ecossistêmicos oferecidos pela floresta, como regulação do clima e do ciclo de carbono, e afetando diretamente a subsistência das populações locais e a economia global. Além disso, eventos climáticos extremos recentes levaram a incêndios florestais descontrolados, aumento da mortalidade de espécies animais e perturbações nos ecossistemas. Em 2023, por exemplo, a Amazônia sofreu com um número recorde de animais mortos devido a condições extremas de seca e calor. [S3] [S1]
Para monitorar e compreender essas mudanças, os cientistas utilizam dados coletados por aviões de pequeno porte e análise de gases atmosféricos em várias regiões da Amazônia, combinados com dados sobre desmatamento, queimadas, precipitação e temperatura do ar. Esses esforços são contínuos, com financiamento da FAPESP e outras instituições, e visam esclarecer os mecanismos que impactam o balanço de carbono e a fotossíntese da vegetação para melhor informar políticas públicas e estratégias conservacionistas. [S1]
Impactos regionais do aquecimento na Amazônia e desafios locais
Estudos indicam que a região centro-norte da Amazônia, apesar de manter elevada cobertura florestal e dar abrigo a importantes unidades de conservação, tem registrado aumento significativo nas temperaturas extremas da estação seca, com elevações médias de 0,75 °C por década desde 1981. Esse aquecimento tem avançado com velocidade superior à média anual do bioma, ampliando o estresse hídrico e aumentando a vulnerabilidade da floresta a incêndios, além de afetar a biodiversidade local e o modo de vida das populações indígenas e ribeirinhas. Essa área é crucial para a preservação do patrimônio cultural e ambiental regional e está entre as mais impactadas pelas mudanças climáticas, independentemente da intensidade do desmatamento em outras partes da Amazônia. [S3]
Medidas essenciais para mitigar as emissões de carbono na Amazônia
A redução drástica das queimadas, associada a políticas públicas que promovam desmatamento zero e restauração florestal, é ressaltada como fundamental para impedir que a Amazônia alcance um ponto de não retorno que comprometa sua resiliência e capacidade de se recuperar. Além disso, o combate à degradação no bioma emerge como crucial para manter o equilíbrio hídrico e climático regional. Frente à possibilidade de eventos climáticos extremos mais frequentes, como os intensos El Niños e aumento das secas, a manutenção da floresta em pé é indispensável para a luta contra o aquecimento global e para a saúde ambiental e socioeconômica da região. [S1] [S4]
Fontes consultadas
- Fogo e desmatamento transformam Amazônia em fonte de carbono para a atmosfera
- Temperatura máxima na estação seca já aumentou mais de 3 °C em área preservada da Amazônia
- Seca e calor extremos do último El Niño antecipam ‘novo normal’ nas florestas tropicais
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