Pesquisador alerta: violência policial ameaça a democracia no Brasil
O sociólogo Sérgio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, alertou sobre os perigos da crescente complacência com a violência policial no Brasil, durante sua palestra na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em 29 de julho. Ele destacou que a normalização da brutalidade, somada ao aumento do ódio nas redes sociais, pode gerar uma ‘anestesia moral’ que afeta a estabilidade democrática do país.
Adorno observou que, ao contrário do período de redemocratização, quando a sociedade se opunha firmemente a abusos de autoridade, hoje há um aumento no apoio a operações policiais violentas. Ele apontou que a aceitação dessas práticas, que antes eram amplamente condenadas, reflete uma mudança alarmante na percepção pública sobre a violência, especialmente a perpetrada por agentes do Estado.
O pesquisador ressaltou que, mesmo entre populações vulneráveis, existe um enigma: muitos que são vítimas da violência policial tendem a apoiar ações que, teoricamente, deveriam protegê-los. Ele alertou para a complexidade das pesquisas de opinião, que muitas vezes não capturam a verdadeira opinião da população, especialmente em contextos de forte emoção, como logo após um crime.
Adorno também discutiu a distribuição desigual do medo da violência. Em entrevistas qualitativas, moradores de favelas frequentemente revelam uma relação ambivalente com a violência policial, que é considerada parte de um cotidiano repleto de desafios. Enquanto os moradores da periferia enfrentam problemas concretos, como infraestrutura e educação, os medos em bairros de classe média e alta tendem a ser mais exacerbados, mesmo quando as taxas de criminalidade são menores.
O sociólogo sinalizou que a violência tem raízes profundas na cultura política brasileira, desde o período colonial. O crescimento do crime organizado na década de 1980 e a normalização de operações policiais letais em áreas de baixa renda refletem um padrão que, segundo ele, se tornou institucionalizado. Em um cenário em que operações violentas se tornaram comuns, a vida de indivíduos passa a ser relativizada com base em classe social, raça e localização geográfica.
Por fim, Adorno alertou sobre a emergência de um fenômeno preocupante: a legitimação da violência como recurso de poder. Ele notou um aumento na intolerância racial, religiosa e política, que se disfarça sob a bandeira da liberdade de expressão. Com isso, ele traçou um paralelo entre a indiferença pública atual e os contextos que precederam regimes totalitários, enfatizando que a anestesia moral pode levar a uma escalada na frequência de operações policiais violentas.
Diante desse cenário, o sociólogo concluiu que é imperativo refletir sobre o impacto da violência estatal na democracia brasileira e buscar formas de reverter essa tendência, antes que as consequências se tornem irreversíveis.
Resumo da Notícia
Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.