Agropecuária América do Sul

Pesquisa aprimora sabor e valor nutricional do chocolate amazônico

Estudo revela que combinação de clones e processos de pós-colheita potencializa qualidade e benefícios do cacau da Amazônia

Inovação no cacau amazônico

A pesquisa sobre o cacau da Amazônia pode impulsionar a economia local ao diversificar produtos com maior valor agregado e benefícios à saúde. Técnicas aprimoradas de processamento permitem atender a mercados variados, desde chocolates gourmet até alimentos funcionais, fortalecendo a competitividade do setor e promovendo o desenvolvimento sustentável na região.



Investigação envolveu a colaboração de pesquisadores da Unesp, da Embrapa e das universidades federais de Rondônia e do Amazonas (Edilaine Istéfani Franklin Traspadini)





Agricultura


Pesquisa une sabor e valor nutricional ao chocolate amazônico







02 de abril de 2026





Estudo mostra que a combinação de clones de cacau com diferentes processos de pós-colheita pode equilibrar qualidade sensorial e benefícios funcionais, abrindo novas perspectivas para a produção de chocolate



Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – O chocolate produzido na Amazônia é reconhecido internacionalmente por seu sabor único. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostrou que ele pode ganhar ainda mais valor. A análise indica que práticas de pós-colheita, como a fermentação das amêndoas da fruta, aliadas à escolha adequada do cultivar podem unir qualidade nutricional e sabor ao chocolate, ampliando o potencial de mercado do produto.



“Diferente da soja, do milho e do trigo, que são pagos pela quantidade, o cacau é um dos poucos produtos agrícolas que é muito mais remunerado pela qualidade. Nesse estudo vimos que é possível que o cacau amazônico ganhe nessas duas vertentes. Por isso, no estudo, selecionamos o melhor cultivar e as melhores formas de pós-produção para obter qualidade nutricional e de sabor”, afirma Renato de Mello Prado, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, em Jaboticabal, que coordenou a pesquisa.



O estudo, apoiado pela FAPESP, foi realizado na Estação Experimental Frederico Afonso, pertencente à Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), em Rondônia, onde os pesquisadores avaliaram nove clones de cacau sob dois sistemas de pós-colheita: grãos fermentados, como no processo tradicional de chocolate, e grãos pré-secos, sem fermentação.



A investigação envolveu a colaboração de pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa de Porto Velho), Universidade Federal de Rondônia (Unir, campus Rolim de Moura) e Universidade Federal do Amazonas (Ufam, campus Humaitá).



“A fermentação é um processo importante na produção do chocolate. Sem ela, a amêndoa não desenvolve a cor e o aroma que conhecemos, mas há um custo nutricional importante nesse processo”, conta Edilaine Istéfani Franklin Traspadini, bolsista de pós-doutorado da FAPESP.



“Por isso, sugerimos a criação de blends que combinem grãos fermentados e não fermentados, como uma estratégia para equilibrar o sabor e o valor nutricional. Essa estratégia pode aumentar o valor do cacau amazônico no mercado de chocolates, seguindo uma abordagem bem parecida com o que tem sido feito no setor de café”, diz.



Os resultados mostraram que a fermentação das amêndoas de cacau reduz mais de 95% dos açúcares e quase 50% dos taninos (responsáveis pelo sabor adstringente), além de diminuir compostos fenólicos e antocianinas (antioxidantes naturais), enquanto aumenta aminoácidos, atividade de enzimas antioxidantes e minerais como potássio e magnésio. Já o cacau não fermentado retém níveis significativamente maiores de minerais como o fósforo e o cálcio, elementos fundamentais para a saúde óssea e cardiovascular.



“Por isso defendemos a necessidade de uma combinação entre uma base fermentada para dar a cor marrom e a textura aveludada, enquanto uma porcentagem de amêndoas não fermentadas entraria como uma injeção de antioxidantes e minerais, criando o equilíbrio entre sabor e saúde”, conta.



Pela primeira vez, foi identificada a presença de glicina betaína e prolina nas amêndoas. Essas moléculas têm o papel de defender a planta contra o estresse oxidativo no campo e servem como um antioxidante poderoso para o corpo humano. “Elas funcionam como verdadeiros protetores celulares, o que pode transformar o cacau amazônico em um superalimento”, destaca Mello.



A análise também mostrou variação entre os cultivares estudados. O clone CCN 51 apresentou um perfil equilibrado, independente se fermentado ou não fermentado. Já o clone EEOP 63 se destacou pela maior produtividade, e o EEOP 96 manteve altos teores de fenólicos e antocianinas quando os grãos não eram fermentados, sugerindo maior vocação para produtos alternativos ao chocolate tradicional, como nibs, ingredientes de bebidas e snacks saudáveis.



“Não é que exista um único clone ideal que deve ser difundido na região. Pelo contrário, o interesse está em combinar diferentes blends para cada finalidade. Por isso a importância desse estudo sobre seleção genética e manejo pós-colheita entre produtores amazônidas de cacau”, finaliza Traspadini.



O artigo Fermentation and clone selection modulate the biochemical and nutritional profile of cocoa beans grown in the southwestern Amazon pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-025-27795-z.

Resumo da Notícia

Pesquisadores brasileiras uniram esforços para aprimorar o chocolate produzido na Amazônia, reconhecido internacionalmente por seu sabor singular. A pesquisa destacou que a escolha cuidadosa dos clones de cacau, aliada a técnicas específicas de pós-colheita, como a fermentação ou o uso de grãos não fermentados, pode equilibrar o gosto característico e o valor nutricional do produto. A fermentação, embora essencial para aroma e cor, reduz certos nutrientes, enquanto os grãos não fermentados mantêm mais antioxidantes e minerais benéficos à saúde. A combinação estratégica desses métodos pode transformar o cacau amazônico em um produto com apelo sensorial e funcional, ampliando seu mercado. Além disso, a descoberta de compostos antioxidantes inéditos reforça o potencial do cacau como superalimento. O estudo envolveu instituições como Unesp, Embrapa e universidades federais locais, e abre caminho para blends exclusivos que atendam diferentes demandas, desde chocolates tradicionais até snacks saudáveis.

Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.

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