Saúde e Bem-Estar Brasil

Obesidade infantil provoca danos vasculares precoces em crianças paulistas

Estudo da Unifesp revela inflamação e disfunção vascular em crianças com sobrepeso, alertando para riscos cardíacos desde cedo

Impactos da Obesidade Infantil

A identificação de danos vasculares em crianças obesas evidencia a urgência de ações preventivas para evitar doenças cardiovasculares precoces. Essa condição compromete a saúde desde a infância, especialmente em grupos vulneráveis, reforçando a importância de políticas públicas que promovam hábitos saudáveis e o acompanhamento médico adequado para reduzir custos futuros com tratamentos e melhorar a qualidade de vida.



Resultados do estudo reforçam a gravidade da obesidade infantil, mostrando que ela precisa ser revertida desde cedo, ressalta Maria do Carmo Pinho Franco, da Unifesp (imagem: Jcomp/Freepik)





Desenvolvimento Infantil


Obesidade infantil causa danos vasculares precoces, indica estudo com crianças paulistas




09 de fevereiro de 2026





Investigação realizada com 130 participantes entre 6 e 11 anos mostrou que inflamação associada a obesidade e sobrepeso afeta o funcionamento do endotélio – camada que reveste os vasos sanguíneos –, abrindo caminho para doenças como aterosclerose, infarto e AVC



Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 130 crianças entre 6 e 11 anos identificou que a obesidade pode causar, por si só, danos imediatos à saúde cardiovascular infantil, aumentando o risco de doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC) já na infância.



O trabalho, apoiado pela FAPESP (processos 21/14313-7 e 22/09352-6), identificou sinais precoces de inflamação e disfunção no endotélio – camada que reveste os vasos sanguíneos – em crianças com sobrepeso e obesidade.



“Os resultados do estudo reforçam a gravidade da obesidade infantil, mostrando que ela precisa ser revertida desde cedo. Alertamos também sobre a necessidade de políticas públicas para a redução da obesidade na infância, sobretudo em populações em vulnerabilidade socioeconômica”, afirma Maria do Carmo Pinho Franco, professora da Unifesp e autora do estudo publicado no International Journal of Obesity.



A pesquisadora explica que a obesidade promove – em adultos e crianças – uma inflamação crônica e de baixo grau que deixa o sistema de defesa do organismo em constante alerta, gerando uma sucessão de falsos alarmes e, por consequência, o envelhecimento prematuro das células imunes. No endotélio, o foco do estudo, os pesquisadores identificaram que esse processo inflamatório provoca dano celular, mesmo em crianças, o que aumenta a gravidade da obesidade infantil.



“Já era sabido que crianças com sobrepeso ou obesidade tendem a se tornar adolescentes e adultos com o mesmo problema, o que aumenta o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e cardiometabólicas no futuro. Mas esse efeito não é apenas cumulativo. O estudo identificou que as crianças com sobrepeso ou obesidade já apresentam sinais de inflamação e disfunção endotelial, indicando que o processo de adoecimento cardiovascular começa já na infância, mesmo antes de outros fatores de risco aparecerem”, diz Franco.



“Essas crianças não fumam, não bebem e não têm décadas de maus hábitos considerados fatores de risco para doenças cardiovasculares. Trata-se também de uma população pré-púbere, ou seja, sem a influência de hormônios sexuais. O único fator presente é o excesso de peso. Portanto, a análise mostrou que a obesidade, por si só, é suficiente para iniciar um processo inflamatório crônico de baixo grau, com impacto direto na saúde vascular”, completa.



No trabalho, os pesquisadores encontraram elevação na expressão gênica da citocina inflamatória TNF-alfa em amostras de sangue das crianças com sobrepeso ou obesidade, além de um aumento dos níveis circulantes de micropartículas endoteliais (EMPs, na sigla em inglês) apoptóticas – os dois marcadores inflamatórios podem indicar dano à célula endotelial, contribuindo para um quadro de disfunção no tecido. Franco explica que, como o endotélio é considerado o orquestrador da saúde vascular, a lesão precoce nos vasos sanguíneos detectada no exame das crianças pode levar a doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).



A pesquisa também mediu indicadores como índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura, pressão arterial e função endotelial da microvasculatura. Crianças com sobrepeso e obesidade apresentaram pior desempenho no Índice de Hiperemia Reativa (RHI, na sigla em inglês), que avalia a saúde dos microvasos, além de maior expressão do gene TNF-alfa, fator que se correlacionou com os níveis elevados de EMPs e a piora da função endotelial.



Outro aspecto importante do estudo é que ele foi conduzido com crianças atendidas em um Centro da Juventude na capital paulista. A avaliação do IMC, circunferência da cintura, pressão arterial e tonometria arterial periférica foi realizada no próprio local, com apoio de nutricionistas, médicos e enfermeiros voluntários.



As análises laboratoriais, incluindo extração de RNA e quantificação de marcadores inflamatórios por PCR (qRT-PCR), foram feitas no Departamento de Biofísica da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp).



Também foi feito um trabalho de conscientização e treinamento com merendeiras e responsáveis em que foram ensinadas receitas que substituíssem o uso de ultraprocessados no cardápio de crianças, priorizando alimentos saudáveis.



Os pesquisadores defendem a necessidade urgente de ampliar e fortalecer políticas públicas para prevenir a obesidade infantil, especialmente em comunidades com vulnerabilidade socioeconômica. “Além de todo o problema de cunho individual, sem a intervenção precoce essas crianças tendem a se tornar adultos com doenças cardiovasculares e metabólicas, o que representa um impacto preocupante para a saúde pública e para a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro”, alerta Franco.



O artigo Whole blood TNF-α expression and apoptotic endothelial microparticles reveal early vascular injury in pediatric obesity pode ser lido em: nature.com/articles/s41366-025-01954-8.

Resumo da Notícia

Pesquisa realizada com crianças entre 6 e 11 anos na cidade de São Paulo identificou que a obesidade infantil causa danos imediatos à saúde dos vasos sanguíneos. O estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) constatou que a inflamação crônica relacionada ao excesso de peso afeta o endotélio, camada que reveste os vasos, aumentando o risco de doenças cardiovasculares como aterosclerose, infarto e AVC ainda na infância. Com 130 participantes, o trabalho destacou a necessidade de intervenções precoces e políticas públicas focadas na redução da obesidade infantil, especialmente em comunidades vulneráveis. Os resultados indicam que o impacto da obesidade vai além do acúmulo de peso, promovendo uma resposta inflamatória que acelera o envelhecimento celular e prejudica a função vascular, mesmo antes de outros fatores de risco se manifestarem.

Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.

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