Novo livro reinterpreta a geografia sob a perspectiva racial
A geografia, como tradicionalmente ensinada, tem suas raízes profundamente enraizadas na Europa. Nomes como Immanuel Kant, Alexander von Humboldt e Friedrich Ratzel são frequentemente destacados na formação da disciplina. Contudo, um novo livro busca mudar essa narrativa, propondo um olhar diferente sobre a história da geografia, a partir das contribuições de geógrafos africanos e negros que permanecem invisibilizados na historiografia.
Intitulado "A dimensão racial na história do pensamento geográfico: Constelações Orí e nervuras da raça", a coletânea organizada por Guilherme dos Santos Claudino, professor da Unesp, apresenta uma reflexão crítica sobre o papel da raça na construção do conhecimento geográfico. Com 782 páginas e 33 capítulos, a obra reúne pesquisadores de várias partes do mundo, incluindo Brasil, África, Europa e Estados Unidos.
Em sua pesquisa, Claudino inicialmente buscou compreender a perspectiva de geógrafos europeus sobre a questão racial. No entanto, ele se deparou com um rico universo de geógrafos negros, além de Milton Santos, um dos poucos reconhecidos. Essa descoberta o levou a reformular a estrutura do livro, que começa com as vozes historicamente secundarizadas.
A primeira parte da coletânea, "Constelações Orí", examina a formação da geografia em países como Nigéria, Gana e Moçambique, ao mesmo tempo que destaca intelectuais negros do Brasil e dos Estados Unidos. A segunda parte, "Nervuras da Raça", analisa como o conceito de raça tem sido tratado por autores europeus renomados. O livro não se limita a criticar o racismo na tradição geográfica, mas busca entender como conceitos de raça e etnia influenciaram a formação da geografia moderna.
Entre os geógrafos mencionados estão figuras proeminentes como Akin Mabogunje, considerado um dos pais da geografia africana, e Thelma McWilliams Glass, uma importante militante dos direitos civis nos EUA. Além de recuperar essas trajetórias, o livro apresenta textos originais traduzidos para o português, permitindo um acesso maior a essas vozes desconhecidas no Brasil.
A obra também revisita a tradição europeia, analisando a presença da categoria "raça" nas obras de Kant e Ratzel, este último conhecido por seu conceito de Lebensraum, que foi utilizado para justificar o expansionismo nazista. Claudino descreve essa parte do livro como um "acertar de contas" com os grandes nomes da geografia, compreendendo como alguns contribuíram para ideologias racistas.
Milton Santos, cuja obra é essencial para a compreensão da geografia sob uma perspectiva racial, também é amplamente abordado na coletânea. Claudino refuta a ideia de que, apesar de ser negro, Santos não teria tratado da questão racial. Segundo ele, Santos produziu uma quantidade significativa de textos sobre a África e a questão racial, desafiando narrativas que tentam minimizá-lo.
Mais do que resgatar figuras esquecidas, a coletânea propõe uma reescrita da história da geografia, destacando a diversidade de tradições intelectuais que a compõem. Essa mudança de perspectiva é a principal contribuição da obra, que visa não apenas ampliar o conhecimento sobre a geografia, mas também fomentar um debate sobre a inclusão de diferentes vozes no campo científico.
O livro "A dimensão racial na história do pensamento geográfico: Constelações Orí e nervuras da raça" está disponível para aquisição na Consequência Editora, e representa um passo importante na valorização das contribuições de geógrafos negros e africanos.
Resumo da Notícia
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