Despolitização do ativismo contra a Aids ameaça conquistas no Brasil
O ativismo contra a Aids no Brasil, reconhecido mundialmente por suas conquistas, enfrenta um momento de fragilidade e despolitização, segundo um estudo da pesquisadora Helena Achcar, do Centro de Política e Economia do Setor Público da FGV. Desde os anos 1980, o país se destacou por garantir tratamento gratuito e desenvolver políticas públicas que priorizavam os direitos humanos, mas esse protagonismo está se dissipando.
O Brasil foi pioneiro ao oferecer tratamento antirretroviral gratuito em 1987, resultado de um forte movimento social que buscava integrar a luta contra a Aids ao contexto de justiça social e democracia. Entretanto, a mudança no perfil das pessoas afetadas pela epidemia, que agora inclui uma população com menor renda e escolaridade, trouxe novas demandas que fragmentaram o ativismo anteriormente unificado.
Achcar afirma que a desmobilização do movimento não é apenas uma questão de falta de recursos financeiros, mas também uma consequência das novas prioridades que surgiram com a pauperização da epidemia. A crescente medicalização da resposta ao HIV e a ênfase em soluções rápidas têm obscurecido as desigualdades estruturais que o ativismo buscava combater. Essa situação é agravada pela crença enganosa de que a Aids está controlada, o que diminui a urgência da mobilização social.
O estudo se baseia nos conceitos do sociólogo Pierre Bourdieu, que analisa como diferentes agentes disputam poder e legitimidade dentro do campo do ativismo. Com a inclusão de novas vozes e a mudança nas prioridades, o movimento se fragmentou, deixando de lado o caráter político que o caracterizava nas décadas anteriores. Achcar destaca que a luta pela Aids deve voltar a ser vista como uma questão de direitos e saúde coletiva, e não apenas uma questão biomédica.
O cenário atual, marcado por tensões entre ONGs tradicionais e novas redes identitárias, revela um movimento enfraquecido e incapaz de lutar com a mesma força de antes. A perda da identidade universalista do ativismo, que unia diferentes grupos em torno de uma causa comum, deu espaço para disputas internas por recursos e legitimidade.
Para reverter essa situação, Achcar defende a necessidade de reconstruir alianças entre os diferentes atores do movimento e recuperar o caráter político da luta contra a Aids. O futuro da resposta brasileira à epidemia depende dessa capacidade de unir esforços e enfrentar as desigualdades que perpetuam a crise de saúde pública. O ativismo é essencial para garantir que as conquistas obtidas nas últimas décadas não sejam perdidas, em um momento em que a população vulnerável precisa de apoio e proteção.
O artigo completo, intitulado "A Bourdieusian approach to the demobilisation of Brazil's AIDS movement", pode ser acessado na revista Sociology of Health & Illness.
Resumo da Notícia
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