Desigualdade social acentua barreiras à prática de atividade física no Brasil
Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que a prática de atividade física durante o lazer é marcada por desigualdades sociais significativas, especialmente entre mulheres de minorias raciais e com baixa escolaridade. A pesquisa, que acompanhou um grupo de 978 moradores de São Paulo ao longo de dez anos, identificou que homens brancos e com maior escolaridade se exercitam mais, enquanto mulheres pretas, pardas, asiáticas e indígenas enfrentam barreiras que dificultam sua participação em atividades físicas de lazer.
Os dados foram publicados em maio no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity e mostraram que, entre 2014 e 2024, a prática de atividade física entre homens brancos com escolaridade elevada aumentou de 51% para 65%. Já no grupo mais vulnerável, a taxa cresceu de 29% para 39%, indicando um aumento da desigualdade. A nutricionista Andreia Alexandra Machado Miranda, uma das autoras do estudo, enfatiza que a prática de atividades físicas não se resume apenas à motivação individual, mas é influenciada por fatores sociais e estruturais.
O estudo utilizou um modelo ecológico para entender como diferentes determinantes sociais afetam a atividade física. Os pesquisadores analisaram não apenas a motivação, mas também o apoio social, as condições de vida e a infraestrutura urbana. Miranda apontou que as mulheres enfrentam desafios adicionais, como a divisão desigual do trabalho doméstico e a falta de segurança em espaços públicos, o que limita suas oportunidades de se exercitarem.
Além da prática de lazer, o estudo também analisou a atividade física relacionada ao transporte. Nesse caso, observou-se que a caminhada para o trabalho se distribui de maneira mais uniforme entre os estratos sociais, com um aumento na adesão geral de 61,8% para 71,6% ao longo do acompanhamento. Apesar disso, a pesquisa não encontrou uma associação significativa entre o índice de vulnerabilidade social e a atividade física no deslocamento, sugerindo que a caminhada é mais uma necessidade do dia a dia do que uma escolha voluntária.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que adultos pratiquem de 150 a 300 minutos de atividade física moderada por semana. No entanto, um em cada três adultos não atinge essas metas, com hábitos de vida inativos contribuindo para cerca de cinco milhões de mortes anuais globalmente. No Brasil, dados de 2024 indicam que 42,3% dos adultos estavam em conformidade com as recomendações da OMS.
Os pesquisadores defendem que políticas públicas devem priorizar grupos vulneráveis para promover a prática de atividades físicas. A implementação de ciclovias em São Paulo nos últimos anos é um exemplo de como a infraestrutura pode estimular a atividade física. O estudo também sugere que a prática de atividade física e a alimentação devem ser analisadas em conjunto para entender melhor a saúde da população.
Esse estudo longitudinal é uma contribuição importante para as políticas de saúde pública, evidenciando a necessidade de ações integradas que abordem as desigualdades sociais e promovam a equidade na prática de atividades físicas.
Resumo da Notícia
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