Cerrado em Risco: Avanço de Árvores Causa Morte de Plantas Rasteiras
O Cerrado brasileiro, famoso por suas paisagens abertas e rica biodiversidade, está passando por transformações preocupantes devido ao fenômeno conhecido como 'adensamento lenhoso'. Esse processo, impulsionado pela diminuição dos incêndios naturais, tem permitido que árvores proliferem, reduzindo drasticamente a presença de gramíneas e ervas, essenciais para o ecossistema.
Estudos anteriores atribuíram a extinção dessas plantas rasteiras à suposta intolerância à sombra, mas uma nova pesquisa publicada na revista Annals of Botany apresenta uma explicação diferente. A falta de luz não apenas prejudica a fotossíntese, mas leva as plantas a esgotarem suas reservas de energia subterrâneas, resultando em um estado de inanição de carbono.
O estudo, liderado por Davi Rodrigo Rossatto, professor da Universidade Estadual Paulista (FCAV-Unesp), analisou áreas de Cerrado em Itirapina (SP) e no Brasil central. Os pesquisadores mediram a intensidade da luz em ambientes adensados e não adensados e descobriram que, enquanto as áreas abertas recebem entre 400 e 1.700 micromoles de fótons, as sombreadas registram entre 6 e 30 micromoles. Esse nível é insuficiente para que as plantas herbáceas mantenham suas funções vitais, levando-as a um estado de fome energética.
Os pesquisadores chamaram esse ambiente sombrio de “Reino da Inanição”. Embora as plantas possam adaptar suas folhas para sobreviver à sombra, essa plasticidade é limitada. As adaptações exigem mais energia, aumentando o consumo das reservas subterrâneas, o que cria um ciclo vicioso de esgotamento. Com o tempo, essas reservas se esgotam, impossibilitando a regeneração das plantas.
O conceito de inanição de carbono, anteriormente aplicado a árvores em condições de seca, agora é associado também às herbáceas do Cerrado. Isso indica que, enquanto o estresse hídrico leva árvores a fechar os estômatos e reduzir a fotossíntese, a falta de luz tem um impacto igualmente devastador nas plantas rasteiras, que se tornam dependentes de suas reservas para sobreviver.
A velocidade do colapso da vegetação rasteira varia conforme a espécie. Gramíneas, com raízes menos desenvolvidas, são as primeiras a desaparecer. Em contrapartida, algumas plantas, como a Andira humilis, conseguem resistir por décadas, mas em condições muito limitadas, com apenas uma folha para captar luz.
Esse estudo representa uma mudança significativa na compreensão ecológica do Cerrado. A proposta de inanição de carbono fornece uma base fisiológica mais robusta para interpretar a dinâmica da vegetação nesse bioma, além de abrir novas frentes de pesquisa. Os próximos passos incluem experimentos que busquem validar essa hipótese e entender melhor as implicações para a biodiversidade e a dinâmica do carbono no Cerrado e em outros ecossistemas abertos.
Resumo da Notícia
Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.