Arquipélago de Alcatrazes: Refúgio para Tubarões em Perigo de Extinção
O Arquipélago de Alcatrazes, localizado a 35 quilômetros da costa de São Sebastião, em São Paulo, se revelou um importante refúgio para o tubarão-mangona (Carcharias taurus), uma espécie criticamente ameaçada de extinção. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) realizaram um estudo que documentou a utilização deste local não apenas para o acasalamento, mas também para a gestação da espécie.
Os dados, publicados no Journal of Fish Biology, confirmam que as fêmeas de tubarão-mangona estão presentes no arquipélago durante todo o ciclo reprodutivo, desafiando a crença anterior de que elas migravam para águas mais quentes do sudeste brasileiro apenas para dar à luz. Durante as observações feitas no Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes, os cientistas registraram uma fêmea com marcas de acasalamento no verão e outra grávida no inverno.
"Esses achados são significativos, pois indicam que o arquipélago serve como um habitat crucial para a reprodução e proteção da espécie", explica Ana Clara Athayde, primeira autora do estudo. A área de proteção marinha, estabelecida em 2016 e gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), é fundamental tanto para os tubarões quanto para os serviços ecossistêmicos que oferece, como a provisão de alimentos para comunidades pesqueiras.
Os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada BRUV (sistemas de estéreo-filmagens subaquáticas remotas) para coletar dados sobre a presença e o comportamento dos tubarões. Durante as amostragens, que ocorreram em profundidades entre 2 e 50 metros, foram realizadas 315 colocações dos equipamentos em 38 pontos diferentes do arquipélago, entre 2022 e 2025.
Além dos dados obtidos pelos pesquisadores, o estudo também contou com a colaboração de mergulhadores recreativos, que contribuíram com informações valiosas através de um modelo de ciência cidadã. O biólogo Guilherme Bertuzo, um dos colaboradores, conseguiu filmar diversos tubarões-mangona em pontos de mergulho, ajudando a enriquecer a pesquisa.
O tubarão-mangona apresenta características reprodutivas únicas, incluindo o fenômeno do canibalismo intrauterino, onde os filhotes se alimentam de óvulos e irmãos mais novos ainda no útero. Essa peculiaridade resulta em uma baixa taxa de fecundidade, o que torna a espécie ainda mais vulnerável à pesca excessiva e à degradação do habitat.
Com a designação de Alcatrazes como uma Área Importante para Tubarões e Raias em 2025, como parte de um programa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a necessidade de proteção da vida marinha ganha ainda mais relevância. Os pesquisadores ressaltam que a preservação de áreas como Alcatrazes é essencial não só para a sobrevivência do tubarão-mangona, mas também para a manutenção da saúde dos ecossistemas marinhos.
Os resultados deste estudo não apenas destacam a importância das unidades de conservação, mas também fornecem informações valiosas para o desenvolvimento de estratégias de conservação mais eficazes, garantindo a proteção de espécies ameaçadas e a sustentabilidade das atividades pesqueiras na região.
Resumo da Notícia
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