Cidadania Brasil
Crédito da imagem: © Volkswagen/Divulgação

Volkswagen é condenada por trabalho escravo em fazenda no Pará

TRT da 8ª Região mantém multa de R$ 165 milhões contra a montadora por exploração na ditadura

Impacto da condenação da Volkswagen

A decisão judicial reforça a responsabilidade das empresas em garantir condições dignas de trabalho, especialmente em contextos históricos de exploração. O pagamento da indenização visa financiar políticas públicas que protejam trabalhadores e previnam abusos, promovendo maior fiscalização e canais de denúncia. Essa medida também sinaliza avanços no reconhecimento dos direitos humanos e na reparação de danos causados por práticas laborais ilegais, com efeitos sociais e econômicos importantes para a sociedade.
Alemanha, 30/08/2025 - Sede do grupo Volkswagen em Wolfsburg. Foto: Volkswagen/Divulgação
© Volkswagen/Divulgação

O Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8) manteve a condenação da Volkswagen por praticar trabalho escravo contemporâneo durante a ditadura civil-militar, na Fazenda Vale do Rio Cristalino, em Santana do Araguaia (PA).

Com a decisão, proferida durante sessão ordinária realizada hoje (24), a montadora deverá arcar com a indenização de R$ 165 milhões, destinada ao financiamento de medidas de proteção a trabalhadores e trabalhadoras, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

O caso foi denunciado em ação civil pública, ou seja, coletiva, do Ministério Público do Trabalho (MPT), que se mobilizou para obter, além da indenização por danos morais, retratação pública da companhia e a implementação de ferramentas como protocolos que agilizem sua resposta em episódios parecidos, um canal de denúncias e a realização de ações de fiscalização.

A condenação da Volkswagen foi anunciada em agosto do ano passado. Diante da decisão do juiz Otávio Bruno da Silva Pereira, do TRT8, havia entrado com recurso para tentar revertê-la, levando o processo à segunda instância.

Na sessão desta terça-feira, o presidente da 4ª turma da Corte, desembargador Carlos Zahlouth Júnior, destacou que, à época dos crimes, a polícia abriu inquérito, mas optou por arquivá-lo. Destacou, ainda, a perseguição, em São Bernardo do Campo (SP), a opositores do regime instaurado com o golpe de 1964, com a participação de parte do empresariado brasileiro. 

"Também reconheço que foi uma das raras empresas que reconheceram seu passado", acrescentou. 

Ao discursar, a desembargadora Alda Maria de Pinho Couto foi no mesmo sentido, apontando para a prática reiterada de violação dos direitos dos trabalhadores. Conforme emendou, trata-se "de um sistema organizado de exploração humana", caracterizado, inclusive, pelo tráfico de pessoas.

A Fazenda Vale do Rio Cristalino pertencia à Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e Indústria (CVRC), uma subsidiária da Volkswagen. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que acompanha o caso, "a propriedade em questão, com cerca de 140 mil hectares – quase o tamanho da cidade de São Paulo –, recebeu incentivos fiscais e recursos públicos para a criação de gado à época, tornando-se um dos maiores polos do setor, acentuando a responsabilidade institucional da empresa."

Para garantir justiça aos trabalhadores explorados, por meio da responsabilização da fabricante alemã, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) reuniu provas das violações de direitos e buscou apoio de parlamentares para dar mais visibilidade a elas. Até agora a entidade acompanha o andamento dos processos judiciais em tramitação. Em outro processo, paralelo à ação civil pública, quatro trabalhadores escravizados pedem, cada um, R$ 1 milhão por danos morais e R$ 1 milhão por danos existenciais.

Os trabalhadores foram atraídos em circunstâncias bastante semelhantes às de outras vítimas desse tipo de crime. Intermediários contratados pela Volkswagen, chamados popularmente de "gatos", que fazem a ponte entre quem escraviza e as vítimas escravizadas, se aproximaram deles com promessas de trabalho digno, condição jamais oferecida de fato.

Procurada pela Agência Brasil, a equipe da Volkswagen em operação no Brasil afirmou que "seguirá em busca de segurança jurídica nas esferas superiores do Judiciário brasileiro".

"Com legado de mais de 70 anos e como uma das maiores empregadoras do Brasil, a Volkswagen reafirma seu compromisso permanente com o respeito absoluto à Constituição Federal, às leis brasileiras e aos princípios internacionais de direitos humanos, que orientam sua atuação como uma das maiores empregadoras do país. A empresa repudia qualquer forma de trabalho forçado, degradante ou análogo à escravidão e reitera sua dedicação histórica à promoção de um ambiente laboral digno, ético e responsável."

Em seu site em inglês, a montadora informa que, no primeiro semestre de 2025, faturou 158,4 bilhões de euros, mesmo tendo desempenho pior do que o primeiro semestre de 2024. Seu relatório mostra que 4,36 milhões de vendas foram fechadas, contra 4,34 milhões do período anterior.

Resumo da Notícia

O Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região confirmou a condenação da Volkswagen por utilizar trabalho escravo contemporâneo na Fazenda Vale do Rio Cristalino, no Pará, durante a ditadura civil-militar. A empresa deve pagar R$ 165 milhões para financiar ações de proteção aos trabalhadores, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador. A decisão decorre de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho, que também buscava medidas de prevenção e reparação, incluindo a criação de canais de denúncia. A fazenda, com cerca de 140 mil hectares, era controlada por uma subsidiária da Volkswagen e recebeu incentivos fiscais na época. A Corte reconheceu o caráter sistemático da exploração, envolvendo até tráfico de pessoas. Paralelamente, trabalhadores escravizados demandam indenizações individuais por danos morais e existenciais. A Volkswagen afirma seu compromisso com os direitos humanos e pretende recorrer da decisão nas instâncias superiores do Judiciário brasileiro.

Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.

Notícias por município