Avanço na resistência agrícola
Foto: Marcos Esteves
A pesquisa amplia as possibilidades de melhoramento genético, unindo conhecimentos ancestrais a tecnologias de ponta
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Descobertas realizadas pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), em colaboração com instituições nacionais e internacionais, mostram que genes de parentes silvestres do amendoim podem aumentar a resistência de plantas cultivadas a múltiplos estresses agrícolas. É uma abordagem inédita, baseada em espécies nativas da América do Sul, que amplia as possibilidades de melhoramento genético, unindo conhecimentos ancestrais a tecnologias de ponta.
Um desses genes é o AdEXLB8, isolado de Arachis duranensis, uma das espécies silvestres ancestrais do amendoim cultivado. Os estudos revelaram que a inserção desse gene promove mecanismos de defesa que podem contribuir para o enfrentamento de diversos desafios da agricultura, como seca, nematoides e fungos.
A originalidade da pesquisa foi mostrar que esse gene não confere resistência de forma direta, mas ativa um mecanismo conhecido como priming de defesa. 'Quando a planta produz essa proteína constantemente, ela age como se estivesse sendo atacada por um patógeno ou se encontrasse sob um estresse ambiental. Assim, ela passa a viver em um estado de alerta permanente. Fazendo um paralelo com seres humanos, é como se estivéssemos com a adrenalina sempre pronta para uma resposta de 'luta ou fuga', mas sem gastar energia demais', explica Ana Brasileiro (foto à direita), pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, que liderou os estudos.
O resultado foi claro: plantas de tabaco, soja, e amendoim contendo este gene exibiram maior tolerância à seca, resistência aos nematoides-das-galhas (Meloidogyne spp.) ou maior tolerância a doenças causadas por fungos, como Sclerotinia sclerotiorum. Em raízes nas quais o gene AdEXLB8 foi superexpressado, a infecção por nematoides chegou a ser reduzida em 60%. Tudo isso sem alterações na produtividade ou na qualidade do produto final.
A jornada da pesquisa começou com a constatação de que espécies silvestres de Arachis exibiam maior rusticidade, resiliência e tolerância a condições ambientais adversas, como seca e salinidade. O material, que é coletado e preservado pela Embrapa, em um programa de conservação liderado pelo pesquisador José Valls (foto à esquerda), também apresentou resistência natural a diversos agentes causadores de doenças, incluindo fungos e nematoides. Essas características de sobrevivência foram adquiridas ao longo de milhares de anos de evolução, em diferentes ecossistemas sujeitos a múltiplos estresses bióticos (causados por outros organismos vivos, como pragas) e abióticos (causados por fatores ambientais).
O processo evolutivo resultou em espécies silvestres mais adaptadas, capazes de suportar ambientes desafiadores, tornando-se fontes valiosas de genes de interesse para o melhoramento genético, à pesquisa e à agricultura. Foi nesse contexto que a pesquisadora Patricia Messemberg coordenou, nos anos 2000, o trabalho de caracterização molecular dessas espécies, com o objetivo de explorar seu potencial para o desenvolvimento de cultivares de amendoim mais resistentes e adaptados.
'Várias dessas espécies silvestres de amendoim têm características de rusticidade que foram perdidas durante o processo de domesticação e não estão mais presentes no amendoim cultivado. O nosso trabalho é explorar essa biodiversidade e transformar esse potencial em soluções para a agricultura”, pontua Messemberg.
Segundo a pesquisadora, historicamente, melhoristas de plantas demonstravam reticência em utilizar materiais silvestres. O cruzamento com variedades cultivadas, embora pudesse transferir uma característica desejada (como a resistência a uma doença), inevitavelmente trazia um conjunto de características selvagens indesejadas. Isso dificultava a inclusão de materiais silvestres em programas de melhoramento de amendoim no Brasil.
Avanço da biotecnologia reforça o melhoramento genético
Ela observa que o avanço da biotecnologia ofereceu um atalho para superar esse obstáculo e conferiu um valor estratégico ao trabalho de conservação. Isso ocorreu em conjunto com o desenvolvimento de ferramentas para utilização das variedades silvestres em programas de melhoramento tradicional, como mapas genéticos, melhoramento assistido por marcadores moleculares, entre outras técnicas. “A biotecnologia contribui para a inclusão dessas espécies selvagens em programas de melhoramento no Brasil e no exterior porque permite transferir, diretamente, um gene de uma planta para uma espécie comercial, sem que isso afete características como produção e qualidade”, enfatiza.
E assim, a equipe da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia mergulhou nos genomas das espécies silvestres de Arachis para identificar os genes responsáveis por essa resiliência ancestral.
Utilizando ferramentas genômicas como a análise de transcriptoma, que, conforme explica Ana Brasileiro, é uma fotografia de uma resposta molecular da planta no momento em que ela é submetida a um estímulo específico, os pesquisadores buscaram os 'genes candidatos' que poderiam estar por trás dessa proteção.
Pesquisa pioneira
Foi nesse processo que o gene AdEXLB8, da subfamília de expansinas-like B (EXLBs), chamou a atenção dos cientistas. As expansinas são proteínas estruturais que estão envolvidas no processo de afrouxamento da parede durante a divisão celular. Por isso, elas são cruciais para o crescimento e desenvolvimento da planta e também conhecidas por seu papel em respostas a estresses hídricos.
No entanto, como explica Brasileiro, a lógica inicial sugeria que uma parede celular mais frouxa facilitaria a entrada de agentes causadores de doenças, o que tornava a observação de resistência a nematoides e fungos intrigante. 'Biologicamente, não sabíamos explicar isso. Por que uma proteína que amolece a parede também conferia resistência a diferentes tipos de estresse, como seca, fungo e nematoide?', questiona a pesquisadora, lembrando a perplexidade inicial da equipe.
Para desvendar esse enigma, o gene AdEXLB8 foi superexpresso em plantas transgênicas de tabaco, de soja e de amendoim. Os resultados foram surpreendentes: as plantas transgênicas exibiram tolerância aumentada a duas espécies de nematoides-das-galhas (Meloidogyne incognita e M. javanica), ao fungo Sclerotinia sclerotiorum e à seca, inclusive quando esses estresses ocorriam simultaneamente.
De acordo com Brasileiro, a explicação para essa resistência de amplo espectro reside em um conceito molecular: o 'estado de pré-ativação de defesa', ou 'priming de defesa'. 'Ao produzir essa proteína de maneira persistente, a planta entende que está sendo atacada. Isso faz com que ela fique em um constante estado de alerta', diz. Nesse estado, a planta mobiliza as suas diversas linhas de defesa de forma mais rápida e eficaz do que uma planta não preparada. A pesquisadora sublinha que essa abordagem é inovadora e que o entendimento desse mecanismo de ação torna a pesquisa pioneira.
Ela esclarece que o gene AdEXLB8, em seu contexto natural, atua apenas nas paredes celulares. Apenas quando ele é inserido em outro organismo por meio de transgenia e passa a ser expresso continuamente é que desencadeia o processo de prontidão na planta. Para a pesquisadora, a aplicação desses genes tem o potencial de reduzir a necessidade de nematicidas e fungicidas químicos, contribuindo para uma agricultura sustentável, com alimentos saudáveis e menor impacto ambiental.
A tecnologia do gene AdEXLB8 está sendo patenteada para todas as expansinas silvestres de Arachis para resistência biótica e abiótica, além de testada em outras culturas, como tomate, soja e algodão.

Conservação que gera inovação
Para Valls, a descoberta das relações do gene AdEXLB8 com a ativação de mecanismos de defesa nas plantas é um exemplo de sucesso e da importância da coleta e da conservação de material genético de espécies silvestres, conhecido no meio científico como coleta de germoplasma. A espécie Arachis duranensis, da qual foi isolado o gene, é uma das cerca de 1.500 amostras (acessos) preservadas no Banco Ativo de Germoplasma de Espécies Silvestres de Arachis, localizado na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília.
'O Brasil é o principal centro de diversidade desse gênero, que atualmente conta com 84 espécies. Dessas, 62 são encontradas no País, sendo 43 exclusivas', destaca o pesquisador, ao ressaltar que a pesquisa está avaliando outros genes promissores identificados graças ao programa de conservação.
Mas até ser isolado e voltar ao campo presente em outros cultivos, o gene AdEXLB8 percorreu um longo caminho. Segundo Valls, que atua há 40 anos na prospecção, resgate e conservação da diversidade genética do gênero Arachis, o primeiro registro de coleta da espécie foi feito na Argentina, em 1905, pelo botânico R. A. Spegazzini. No entanto, a amostra era apenas para herbário, ou seja, não era possível multiplicar aquela planta.
Em 1953, o pesquisador Antonio Krapovickas coleta as primeiras sementes de Arachis duranensis, junto com exsicatas, que são plantas secas e prensadas, montadas em folhas de papel especial, que ficam guardadas em herbários. Assim, foi possível multiplicar a planta. “Esse é o marco que permitiu a disponibilidade da espécie para pesquisa até hoje”, salienta Valls.
Em 1977, o Brasil recebeu os primeiros materiais da espécie, por meio de uma doação da Universidade da Carolina do Norte (NCSU) para a Embrapa. Desde então, ela tem sido preservada no País. “Hoje, o gene AdEXLB8 demonstra importância científica ao ser associado à resistência da planta a múltiplos estresses, mostrando o valor da coleta e da conservação de germoplasma feita há 72 anos”, complementa o pesquisador.

De acordo com Messemberg (foto à direita), um dos aspectos interessantes do projeto foi estabelecer uma ligação estreita entre as áreas de coleta e de caracterização de germoplasma à identificação de genes da espécie Arachis e sua aplicação via biotecnologia. “Esse modelo, que representa a missão central da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, já vem sendo utilizado por centros de pesquisa internacionais para outras culturas”, conta.
A pesquisadora destaca ainda que seu grupo de pesquisa fez parte de iniciativas internacionais que foram pioneiras no uso de marcadores moleculares, no desenvolvimento de mapas genéticos e no sequenciamento do genoma de espécies silvestres de Arachis. Essa base de conhecimento molecular tornou o material conservado efetivamente disponível para diversas aplicações práticas.
Para ela, a evolução das ferramentas genômicas, desde o uso de marcadores moleculares até a edição gênica, está possibilitando a abertura de uma nova fronteira para a pesquisa, chamada de 'redomesticação'. As novas ferramentas biotecnológicas permitem editar, simultaneamente, genes estratégicos associados à domesticação em uma espécie silvestre, tornando-a apta ao cultivo em poucas gerações. “Isso representa um novo e poderoso estímulo para o uso da biodiversidade armazenada em bancos de germoplasma”, garante.
O que é o priming de defesa'?O 'priming de defesa' é um mecanismo pelo qual as plantas se preparam para futuros ataques ou estresses sem manter uma defesa ativa e dispendiosa o tempo todo. Imagine que a planta recebe um 'aviso prévio' de uma ameaça. Em vez de entrar em 'guerra total' imediatamente, o que consumiria muita energia, ela entra em um estado de 'prontidão' ou 'alerta basal'. No entanto, possui mecanismos para regular essa condição e não deixar que esse estresse prejudique seu desenvolvimento. No caso do gene AdEXLB8, essa prontidão é induzida pela expressão da proteína, que a planta interpreta como um sinal de estresse. Esse estado de alerta basal se manifesta a partir de três mecanismos: Reorganização da parede celular: A planta ajusta as propriedades físicas de sua parede celular, tornando-a mais flexível para resistir a danos. Ativação de vias de sinalização: Hormônios como o ácido jasmônico (AJ), o ácido abscísico (ABA), etileno (ET) e auxina (AUX), que são os 'mensageiros' das respostas de defesa, ficam em um estado de 'pré-ativação'. Sistema antioxidativo reforçado: A planta aumenta sua capacidade de produzir enzimas antioxidantes, como catalase (CAT1) e ascorbato peroxidase (APX1), e biossíntese de prolina, para combater espécies reativas de oxigênio (ROS), subprodutos tóxicos do estresse. Quando o estresse real (seja uma praga, doença ou seca) realmente ocorre, a planta primed é capaz de 'ligar' suas defesas de forma rápida e intensa, minimizando os danos. Brasileiro exemplifica usos práticos do priming na agricultura: 'Você pode tratar uma semente com ultravioleta ou com alguns agentes químicos para induzir esse estado de alerta. E quando você coloca essa semente para germinar, ela fica muito mais resistente aos patógenos', afirma. Outro exemplo comum é o tratamento de hortaliças e frutas com ultravioleta para ampliar o tempo de prateleira. A vantagem do processo do priming de defesa ativado pelo gene AdEXLB8 é que ele não impõe os custos metabólicos de uma resposta de defesa constante. Assim, a planta conserva sua energia até que ela seja necessária, oferecendo uma defesa de amplo espectro com eficiência. |
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Fotos: Marcos Esteves
Resumo da Notícia
Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.
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