Agropecuária Brasil

Nova tecnologia agiliza autenticidade e rastreabilidade do café brasileiro

Espectroscopia no infravermelho próximo identifica origem e combate fraudes em cafés com rapidez e baixo custo

Avanço na Autenticação do Café

A nova tecnologia aprimora a segurança e a transparência na cadeia do café, beneficiando produtores e consumidores. Ao facilitar a identificação da origem e a detecção de fraudes, a técnica fortalece a valorização de cafés especiais, especialmente de comunidades indígenas, e promove maior acesso a mercados qualificados, além de otimizar processos de certificação e comercialização no setor.

Foto: Antonio Scarpinetti (SEC)

Antonio Scarpinetti (SEC) - Análise dos grãos de café na versão portátil do equipamento de infravermelho próximo (NIR)

Análise dos grãos de café na versão portátil do equipamento de infravermelho próximo (NIR)

  • A espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) reduz significativamente o tempo das análises laboratoriais, realizadas em poucos segundos, sem reagentes químicos e sem danos às amostras.
  • A técnica contribui para fortalecer a identidade territorial e cultural dos cafés indígenas amazônicos, ampliando o acesso a mercados de cafés especiais.
  • Ela também identifica adulterações por materiais estranhos e ajuda a evitar fraudes, que se intensificaram com a alta do preço do café no mercado brasileiro.
  • A NIR abre novas perspectivas para o melhoramento genético e a rastreabilidade digital.
  • Um dos objetivos futuros é desenvolver uma plataforma digital de autenticação, conectando produtores, cooperativas e certificadoras.

Pesquisas da Embrapa Rondônia (RO) indicam que a espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) permite identificar a origem geográfica do café e detectar adulterações de forma rápida e acessível. A técnica, já empregada em outras cadeias agroindustriais, está em fase de validação para o setor cafeeiro e tem potencial para fortalecer as indicações geográficas e certificações de qualidade do produto brasileiro.

A NIR mede como a luz interage com os compostos químicos. O processo gera um sinal químico chamado de “espectro”, que funciona como uma “impressão digital”. Com base em bancos de dados e algoritmos treinados, o sistema identifica a origem do grão e verifica se há adulterações, em poucos segundos, e sem destruir a amostra.

“É uma tecnologia que permite identificar o terroir do café, chegando ao nível da área produtiva”, explica o pesquisador Enrique Alves, da Embrapa Rondônia.

A pesquisa foi desenvolvida ao longo de cinco anos como parte do doutorado de Michel Baqueta na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a equipe da Embrapa Rondônia. O estudo combinou espectroscopia NIR e análise quimiométrica (aplicação de métodos matemáticos e estatísticos para extrair informações úteis de dados químicos complexos) para criar padrões espectrais capazes de diferenciar origens, detectar adulterações e reconhecer terroirs específicos. Por exemplo, os resultados separam os cafés robustas amazônicos (inclusive as variedades indígenas) de conilons do Espírito Santo e da Bahia, variedades de café canéfora (Coffea canephora) em diferentes solos cultivados.

A mesma técnica pode ser aplicada em outras cadeias agroalimentares — cacau, soja, leite, frutas e vinhos — com ganhos de rastreabilidade e controle de qualidade. A NIR abre caminho para um novo padrão de confiança na origem e pureza dos produtos agropecuários brasileiros. Nos testes, foi possível identificar adulterações no café com materiais como milho, soja, casca e borra, além de sementes de açaí, apontada por Baqueta como “um tipo emergente de fraude”.

Foto: Antonio Scarpinetti

Como funciona a NIR

1. A amostra de café (em grão ou moída) é colocada no equipamento.
2. O feixe de luz infravermelha incide sobre o grão.
3. Os compostos químicos reagem e geram um espectro químico — sua 'impressão digital'.
4. O software compara o espectro com o banco de dados.
5. O sistema identifica origem, pureza e autenticidade em segundos.

Identidade e autenticidade como diferenciais

O trabalho contou com a colaboração de universidades brasileiras e centros de pesquisa da Itália e da França, reunindo competências em ciência de alimentos, química analítica e espectroscopia. Em paralelo, estudos no Espírito Santo aplicaram a mesma metodologia para delimitar terroirs regionais, reforçando a consistência dos resultados e a possibilidade de uso do banco de dados espectral em laboratórios e, futuramente, em equipamentos portáteis.

A validação científica por NIR facilita o reconhecimento técnico e mercadológico dos cafés indígenas amazônicos, fortalecendo sua identidade territorial e cultural. A confirmação de origem e autenticidade agrega valor econômico e simbólico, o que amplia o acesso desses produtores a mercados de cafés especiais e promove a valorização da biodiversidade e dos sistemas produtivos tradicionais.

Contra fraudes e adulterações

Alves explica que a técnica reconhece padrões químicos que funcionam como uma “impressão digital” do grão, permitindo distinguir cafés por origem e pureza. Ela também é capaz de identificar alterações provocadas pela presença de materiais estranhos — como milho, soja, casca, borra ou sementes de açaí — usados em fraudes que se intensificaram com a alta do preço do café no mercado brasileiro. “Se houver contaminante, palha ou outro resíduo, a curva espectral muda e conseguimos confirmar a adulteração”, complementa o pesquisador. É possível saber, também, se houve mistura de grãos em um lote.

A espectroscopia NIR possibilita detectar essas fraudes de maneira rápida e precisa, sem uso de reagentes e sem destruir a amostra. As análises podem ser realizadas diretamente no local de fiscalização, agilizando o controle de qualidade e fortalecendo a rastreabilidade do café brasileiro. “Uma análise convencional pode exigir preparo de amostra e reagentes. Com a NIR, o resultado sai em segundos, com mínimo custo operacional”, destaca Baqueta.

O que a NIR detecta

• Misturas de cafés de origens diferentes (ex.: Rondônia + Espírito Santo)
• Adição de materiais estranhos: milho, soja, casca, borra, sementes de açaí
• Diferença entre cafés indígenas e não indígenas
• Contaminações e impurezas no pó moído

Tecnologia acessível e de baixo custo

Além de evitar adulterações, a técnica abre novas perspectivas para o melhoramento genético e a rastreabilidade digital. A equipe da Embrapa Rondônia pretende aplicá-la ao banco de germoplasma que contém mil acessos de café, para identificar perfis químicos associados a características como o teor de cafeína e minerais. Isso pode acelerar a seleção de materiais de interesse e valorizar cafés de origem, e assim reforçar a imagem de qualidade do produto nacional.

Uma vantagem substancial da espectroscopia NIR é a significativa redução no tempo de análise em comparação com os métodos convencionais. Uma avaliação laboratorial tradicional pode levar horas ou até dias, dependendo do preparo da amostra (foto à esquerda) e do uso de reagentes químicos, e gera laudos laboratoriais demorados. Já a leitura por NIR é quase instantânea, fornecendo resultados em poucos segundos. “A técnica oferece rapidez e não requer reagentes, o que representa um avanço relevante para a rastreabilidade e a certificação de cafés de origem brasileira”, enfatiza Alves.

Baqueta acrescenta que o equipamento realiza a leitura sem destruir o grão e sem a necessidade de produtos químicos, o que também diminui custos e resíduos. Essa agilidade, somada à possibilidade de uso em campo com equipamentos portáteis, torna o método especialmente promissor para cooperativas, certificadoras e órgãos de fiscalização, que passam a poder verificar a autenticidade e a pureza do café de forma rápida e padronizada.

Foto: Michel Rocha Baqueta

NIR em números

  • 1000 acessos do banco genético de café analisáveis
  • Redução potencial de custo: até 95%
  • Tempo de análise: segundos
  • Aplicabilidade em grãos crus, torrados ou moídos
  • Equipamentos disponíveis em versões de bancada e portáteis

“A técnica foi idealizada justamente para permitir que cooperativas, associações e agências de certificação tenham acesso a uma ferramenta rápida, confiável e de baixo custo, promovendo a democratização da autenticação e rastreabilidade”, observa afirma Baqueta. Ele destaca que o equipamento de NIR pode ser usado em versões de bancada (foto à direita) ou portáteis, o que facilita a adoção. Ele ressalta que a técnica não exige reagentes, gases ou infraestrutura sofisticada, podendo ser aplicada até em unidades móveis de campo. O treinamento é simples e rápido, e diversos fabricantes já oferecem suporte técnico e capacitação.

Segundo Baqueta, há um movimento crescente de integração da espectroscopia NIR a dispositivos móveis e aplicativos conectados à nuvem, permitindo análises em tempo real e resultados disponíveis em plataformas digitais. Essa inovação pode ligar o campo ao consumidor e oferecer mais transparência no setor do café.

Rastreabilidade digital e certificação de origem

Embora a NIR já seja utilizada em cadeias como leite e soja, seu uso no café ainda é novidade no Brasil. A expectativa é que, com o avanço do banco de dados e a validação dos modelos, a tecnologia seja incorporada a dispositivos portáteis e sistemas digitais de rastreabilidade, ampliando o controle de qualidade ao longo de toda a cadeia produtiva.

Baqueta aponta que, uma vez validados os modelos e definidos protocolos oficiais, os resultados da NIR podem ganhar valor legal como ferramenta de apoio à certificação de origem, pureza e qualidade do café. Isso permitiria que o método seja reconhecido em auditorias e selos de qualidade, consolidando-o como instrumento técnico de confiança para o mercado e órgãos certificadores.

A adoção da espectroscopia NIR pode revolucionar o controle de qualidade e a rastreabilidade do café brasileiro: “A técnica permite monitorar lotes desde a origem até a exportação, prevenindo fraudes e fortalecendo a confiança do mercado. Também facilita ações de fiscalização mais ágeis e transparentes por parte de órgãos públicos e cooperativas”, diz Baqueta.

Foto: Michel Rocha Baqueta

Porque isso importa

  • Democratiza certificações, tornando-as viáveis para cooperativas e pequenos produtores.
  • Fortalece indicações geográficas e combate falsificações.
  • Aumenta a rastreabilidade e a confiança do mercado.
  • Valoriza cafés indígenas e produtos com identidade territorial

Uso coletivo

O custo inicial pode ser considerado um desafio, mas, para Baqueta, “a capacidade de uso coletivo torna o investimento viável”. Além disso, o treinamento é considerado simples e rápido, o que pode ser facilitado por programas de capacitação e suporte técnico de fabricantes.

Entre as próximas metas da pesquisa estão a ampliação do banco de dados espectral com amostras de diferentes regiões do Brasil e o desenvolvimento de uma plataforma digital de autenticação, conectando produtores, cooperativas e certificadoras. A expectativa é consolidar a NIR como referência nacional para autenticação e rastreabilidade dos cafés brasileiros.

Glossário

  • Espectroscopia NIR – técnica que usa radiação na região do infravermelho próximo para identificar compostos químicos.
  • Curva espectral – gráfico que representa a resposta química do café à radiação eletromagnética.
  • Terroir – conjunto de fatores ambientais e culturais que influenciam o sabor e a composição.
  • Quimiometria – análise multivariada dos dados químicos coletados.
  • Impressão digital química – assinatura única de cada amostra


Resumo da Notícia

Pesquisadores da Embrapa Rondônia desenvolveram um método inovador que utiliza espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) para analisar grãos de café de forma rápida, sem uso de reagentes e sem danificar as amostras. Essa técnica permite identificar a origem geográfica do café, detectar adulterações e distinguir variedades, fortalecendo a autenticidade e a rastreabilidade dos produtos brasileiros. Além de combater fraudes com materiais estranhos, a tecnologia valoriza cafés indígenas amazônicos ao reforçar sua identidade territorial e cultural, ampliando o acesso a mercados de cafés especiais. Equipamentos portáteis e versões de bancada tornam o processo acessível para cooperativas e certificadoras, enquanto a integração com plataformas digitais abre caminho para certificações mais ágeis e confiáveis. A iniciativa também visa ampliar bancos de dados espectrais e desenvolver uma plataforma digital para autenticação, promovendo transparência e confiança em toda a cadeia produtiva do café no Brasil.

Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.

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