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Brasil adota postura cautelosa entre EUA e Irã em conflito atual

Governo brasileiro busca equilíbrio entre aliados do BRICS e negociações com os Estados Unidos

Impactos da tensão no Irã para o Brasil

A delicada posição do Brasil diante dos conflitos no Irã reflete a necessidade de preservar relações comerciais e diplomáticas estratégicas, especialmente com os Estados Unidos e países do BRICS. A escalada do conflito pode influenciar diretamente a economia nacional, elevando custos de energia e afetando exportações agrícolas, o que torna essencial o equilíbrio entre a defesa da paz e a proteção dos interesses econômicos brasileiros.
Rio de Janeiro (RJ), 22/12/2025 - Retrospectiva 2025 - Foto feita em 07/07/2025 - O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva e autoridades dos países-membros e convidados do BRICS durante foto oficial, no Museu da Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
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O Brasil deve adotar postura cautelosa em relação aos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, neste sábado (28). Esse comportamento é explicado por um cenário em que o governo brasileiro conduz negociações tarifárias com os americanos e tem nos iranianos um aliado que forma o Brics, grupo de nações do chamado Sul Global.

A avaliação é de especialistas em relações internacionais ouvidos pela Agência Brasil. Na manhã deste sábado, o governo brasileiro emitiu um comunicado em que condena a ofensiva e defende negociações como caminho para a paz. 

Negociação é a “posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região”, diz a nota do governo, divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores.

“O Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil”, completa o comunicado.

Mesmo em meio a negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano, os Estados Unidos realizaram uma ofensiva militar contra alvos no território iraniano. Israel também executou ataques.

O Irã retaliou com o lançamento de mísseis a países vizinhos que ostentam bases americanas. O país do Oriente Médio sustenta que o desenvolvimento de tecnologia nuclear tem fins pacíficos.

Cautela

O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), defende que o Ministério das Relações Exteriores brasileiro tem que encontrar uma “posição intermediária” entre Irã e Estados Unidos.

“Como o Irã agora é um membro dos Brics, o Brasil se coloca em uma posição difícil de criar um tipo de posição em que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os Estados Unidos, dado que o Brasil tem essa negociação com os Estados Unidos”, avalia.

Há a expectativa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encontre com Trump nos Estados Unidos, no fim de março.

A negociação a qual se refere Feliciano trata de tarifas de importação impostas em agosto passado pelo governo Trump. O Brasil chegou a ter produtos tarifados em até 50%

Ao elevar taxas sobre produtos importados, o governo dos Estados Unidos justifica que pretende proteger a economia americana, já que, com taxação, os americanos tenderiam a fabricar produtos localmente em vez de adquiri-los no exterior. 

Desde então, os governos brasileiro e americano negociam formas de buscar acordos para a parceria comercial. Houve retiradas de produtos da lista de tarifas.

No dia 20 de fevereiro, uma decisão da Suprema Corte dos EUA derrubou a decisão de Trump, que reagiu impondo tarifa de 10% a diversos países. 

O professor titular aposentado de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Williams Gonçalves destaca que a posição de cautela que precisa ser adotada pelo Brasil tem a ver com o fato de o país ser fundador do Brics, grupo que reúne 11 países-membros e 10 países-parceiros que se definem como Sul Global.

A Rússia e a China, dois importantes aliados do Irã, também são fundadores do Brics, em 2006. O Irã passou a ser país-membro em 2024.

“O Brasil tem uma relação com a Rússia e com a China forte e tem uma relação não tão forte, mas tem uma relação com Irã”, assinala o professor.

“Estão todos [países] dentro do mesmo barco do Brics, todos engajados, pelo menos teoricamente, na ideia de mudança da ordem internacional”, enfatiza Gonçalves.

Determinação dos povos

Williams Gonçalves lembra que o Brasil tem adotado cautela também em virtude das ações de Trump na Venezuela.

“O regime de Trump foi lá e sequestrou um presidente da República na América do Sul, nosso vizinho”, cita, em referência à captura de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro.

“Nossa posição tem sido de muita cautela, procurando assim não fazer nada que aparente ser uma provocação ou uma reação forte”, afirma.

No entanto, Gonçalves entende que o desdobrar dos acontecimentos pode exigir posições mais fortes do Brasil. Ele cita a pretensão declarada dos Estados Unidos de mudar o regime no Irã.

“O Brasil, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos, que sempre defendeu o princípio da não ingerência, não pode agora apoiar governos que intervenham em outros estados com a finalidade de mudar o sistema político escolhido pelo seu povo”, avalia.

Crítica e negociação

O pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) Leonardo Paz Neves acredita que o Brasil pode ser afetado de forma limitada pelo conflito no Oriente Médio.

Segundo ele, o posicionamento do governo foi “protocolar”, criticando o ataque.

“Não acho que o presidente Lula e o Brasil vão se engajar muito nesse conflito. Está muito longe do Brasil, não tem grandes interesses específicos do Brasil nesse processo. Obviamente o Brasil está em uma tentativa muito prolongada de negociação com os Estados Unidos”, avalia.

Ao comentar a possível viagem de Lula aos Estados Unidos em março, o pesquisador diz acreditar que o país deve manter posição “crítica institucional”, chamando Irã e Estados Unidos para voltarem à mesa de negociação.

“Mas sem se envolver muito fortemente porque tem muito a perder”, ressalta.

“Ele [Lula]sabe como o Trump funciona, e antagonizar com o Trump agora é atrair uma atenção negativa para o Brasil muito grande”, justifica.

Comércio com Irã

Para Leonardo Paz Neves, os efeitos econômicos que o Brasil pode sofrer com a escalada do conflito passam pelo petróleo, que pode subir de preço

“O que gera inflação. Toda vez que o petróleo sobe ─ o petróleo é base de cadeia ─ então impacta em diversos setores”.

Outro reflexo, acrescenta o pesquisador, é no comércio internacional com o Irã.

“O Irã é um importador importante dos produtos brasileiros, especialmente a soja, o milho e alguma coisa de proteína”, lista.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em 2025, a corrente de comércio Brasil-Irã ficou em US$ 3 bilhões, o equivalente a mais de R$ 15 bilhões. O Brasil tem superávit na relação comercial, tendo exportado US$ 2,9 bilhões e importado US$ 85 milhões.

O Irã foi no ano passado o 31º país para os quais o Brasil mais exportou. O principal produto de exportação é o milho não moído, que responde por 67,9% do valor dos embarques. Em seguida aparece a soja, com 19,3%.

“Se o conflito escalar muito e tiver o Irã cercado pela marinha americana, vai ser um problema mandar a exportação brasileira para lá. Vai ter alguns setores aqui no Brasil que vão sofrer um pouco, perder um importante comprador”, diz.

Resumo da Notícia

Diante dos recentes ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, o Brasil opta por uma posição de cautela, buscando evitar tensões que possam prejudicar suas relações internacionais. Como membro fundador do BRICS, que agora inclui o Irã, o país mantém negociações tarifárias em andamento com os Estados Unidos, o que exige um equilíbrio delicado. O governo brasileiro condena a ofensiva e defende o diálogo como caminho para a paz, apelando ao respeito pelo direito internacional e à proteção da população civil. Especialistas ressaltam que o Brasil tenta evitar antagonizar qualquer lado enquanto protege seus interesses comerciais, especialmente as exportações para o Irã, que incluem milho e soja. A escalada do conflito poderá impactar a economia brasileira, principalmente pelo aumento dos preços do petróleo e possíveis dificuldades nas exportações. A expectativa é que o presidente Lula mantenha uma postura crítica, porém diplomática, em encontros futuros com líderes americanos, reforçando a autodeterminação dos povos e o princípio da não intervenção.

Resumo editorial produzido pela plataforma com apoio de inteligência artificial.

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